...ditos, mitos & ritos...

quarta-feira, 18 de junho de 2008

III_JUNHO _ O Mês Do Solstício De Verão...

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(mapa astronómico/astrológico interactivo)



III

( Lua cheia elevando-se, vista "junto" do Templo de Poseidon, Grécia_18/06/08)


JUNHO _ O Mês Do Solstício


De Verão...


Será difícil encontrar um tema relacionado com este mês que não tenha a ver com natureza, ar livre, enfim, ambiente em qualquer sentido, do mais ao menos lato...mas até faremos esse esforço. Daí não considerar importante, dentro deste "limite" temporal, tratar qualquer assunto em obediência e sujeição a qualquer calendário mais restrito. E até chegar ao fim...

...SANTOS(?) POPULARES...



Junho é ainda chamado o mês dos Santos Populares. Não será difícil compreender os fundamentos da escolha desta época para tais celebrações, se pensarmos que é a época do bom tempo para a recreação ao ar livre; a boa disposição que o clima aporta predispõe à extroversão e daí a pensar em festas ou festejos não custa nada. Sobretudo se nos recordarmos que o calendário cristão não é tão inocente como os santos que celebra em determinadas ocasiões. Neste caso referimo-nos à "coincidência " de datas de celebrações de divindades ou entidades de povos de culturas e/ou civilizações recuadas no tempo, com alguns resíduos após a cristianização, sobretudo em tempos mais modernos, devido a uma maior liberalidade ou liberdade face à anterior posição dominante do Cristianismo, conforme se pode ler num trabalho sobre o tema das festas populares em geral. E passo a citar:

"(...)Estas festas, consideradas pagãs após o nascimento do cristianismo, foram objecto de intensa acção da recém-nascida religião com o objectivo de extingui-las. Entretanto, sendo como eram, manifestações profundamente enraizadas nas práticas quotidianas da população, não restou outra alternativa à Igreja senão incorporá-las à sua liturgia. Após vários séculos de estreita simbiosis entre o sagrado e o profano, actualmente estas manifestações projectam no cenário da pós-modernidade toda a força das suas longínquas raízes, as quais, sobrepondo-se aos limites da liturgia e da fé católicas, identificam as verdadeiras faces da cultura como prática quotidiana e como expressão comunicativa. (...) Na Roma antiga o calende di giugno era basicamente dedicado ao Sol ou melhor, ao solstício de verão, sob a forma de fogo; durante todo o mês festejavam-se os diferentes deuses ligados à religião do Sol. A primeira destas festas era a Vestalia, a festa dedicada a Vesta, ligada ao fogo da terra; a seguir,vinha a festa de Romolo Quirinale, no dia 29. Era tão forte o culto ao Sol e a sua relação com o fogo, o calor, que o imperador Aureliano fixou a data da festa do Sol _ o Sol Invictus _ no dia do solstício de Verão: 21 de Junho. Segundo estudiosos, desde a Roma antiga os plebeus e os escravos festejavam o solstício de Verão (21 de Junho) com uma festa de alegria e de embriaguez, que era associada ao rei nascido do fogo, Servio Tullio. As diversões populares dessa festa compreendiam corridas a pé e pelo rio Tevere, em barcos enfeitados com flores e ocupados por jovens que se embriagavam. Desde aquela época já era uma festa relacionada com a água e com o fogo; uma espéciede Saturnalia de Verão, era uma festa denominada Fors Fortuna e Sol Invictus, as entidades integrantes da antiga religião do Sol . Esta antiga religião do Sol tem origem no mito que envolve a vida de Servio Tullio, sexto rei romano que, segundo os mitos, era protegido da deusa

Fortuna; esta deusa , que protegia o destino individual e a boa sorte vivia uma história de amor com Servio Tullio na qual se debatia entre a profunda paixão que sentia pelo mortal e a sua condição de deusa. Além disso, era ele mesmo objecto de adoração, pois recebia emanações de Vulcano, seu pai, além de haver nascido do fogo. Por outro lado, segundo as fontes clássicas, nem mesmo o incêndio que em 539 a.C. devastou a região romana onde estava o templo da deusa Fortuna afectou uma estátua de Servio, embora esta fosse de madeira. Assim, a prática antiga estabelecia uma profunda relação entre o rei Servio, a deusa Fortuna, o Sol e o fogo, o suficiente para que fossem realizados rituais sagrados em sua honra. Para estes rituais existiam dois templos e duas datas na Roma antiga. A primeira data era 11 de Junho, celebrado no templo do Foro Boario (até hoje existente); era uma manifestação ritualística sagrada, reservada aos sacerdotes e iniciados. A outra festa realizava-se em 21 de Junho em outro templo que se situava do outro lado do Tevere, onde a plebe participava, invocando o nome da deusa Fors Fortuna, em grandes manifestações de alegria e embriaguez. Os jovens passavam o dia no templo, dançando enfeitados de flores, em jogos de água e de fogo. Segundo Varrão, esta festa foi estabelecida por Servio Tullio, o qual teria também erigido estes templos à deusa Fortuna. O certo é que esta festa era dedicada ao solstício de Verão, ao calor solar e às suas qualidades de maturar os frutos da terra. Daí o costume de enfeitar casas, templos, pontes e até mesmo as pessoas com belas guirlandas de flores. A festa de Fors Fortuna continuou a figurar no calendário apenas no dia 24 de Junho. Na época contemporânea pode-se assistir na Piazza San Giovanniin Laterano, no centro de Roma, durante a noite de 23 para 24 de junho, a uma festa derivada do antigo ritual da Fors Fortuna. Os rituais de San Giovanni, ainda hoje muito festejados na Itália e outras partes do mundo(!), fazem parte desta antiga festa .pagã. do solstício de Verão, onde, como em qualquer festa cíclica, se representavam e celebravam a morte e o renascimento da vegetação, a fecundidade e a fertilidade da natureza e dos homens. A noite de San Giovanni é especial, carregada de magia e de bons presságios; prenhe das forças sagradas que estão difusas na natureza, é a noite que decide os destinos de todo o ano solar. É a noite das práticas adivinhatórias, da purificação pela água e pelo fogo, a noite das fogueiras ritualísticas, da colheita nocturna das ervas benéficas, a noite das uniões sagradas.


Como é possível um ritual nocturno, alusivo a um remoto culto agrário e solar, ter sido identificado com o culto a San Giovanni? A hipótese mais provável, segundo uma autora que cita vários outros pesquisadores, é que o cristianismo integrou no interior da própria liturgia as duas grandes festas .pagãs.: o 21 de Junho (.exportado. para 24 de Junho para coincidir com o dia de San Giovanni), como solstício de Verão, e o 25 de Dezembro, como solstício de Inverno, celebrado através das Saturnalia. Uma vez que aquelas festas eram dois momentos muito especiais das antigas práticas culturais populares, a Igreja, provavelmente, tratou de fortalecer ainda mais a ligação já existente entre São João Baptista e a figura de Cristo, transformando, através de uma elaboração teológica, as duas festas .pagãs. e populares em festas religiosas. O mito dos dois sacros nascimentos como metáfora do ciclo agrário solar foi fundado pelo próprio Evangelho, o que tornou fácil sua manipulação pela Igreja.(...). Como na celebração do ritual antigo, as festas do solstício de Verão e de Inverno identificavam-se com uma religião agrária e solar, na elaboração cristã o complexo mítico-ritualístico de Cristo e de João Baptista foi integrado num único ciclo; não é por acaso que ambas as festas se realizam, primordialmente, à noite: a Noite de São João e a Noite de Natal. Esta operação de absorção, condicionamento e adaptação do culto cristão ao antigo substrato .pagão., entretanto, não foi linear e indolor; durante séculos, periodicamente, levantaram-se vozes condenando os resíduos .pagãos. que jamais puderam ser excluídos da festa cristã.(...) Terminada a cerimónia religiosa, a multidão corria pelos prados da piazza, dando início à festa profana. Nesta noite, abriam-se os banhos públicos no Tevere, onde a população se banhava pois, nesta noite, a água seria portadora de misteriosas virtudes. (...) Na festa de San Giovanni, a presença constante do fogo, da água, do culto às ervas sagradas também pode indicar esta relação atávica entre homem e natureza; por outro lado, a insistência em representar, num desfile histórico,os personagens significativos do passado, pode estar relacionada com a necessidade de vincular a este passado histórico concreto as experiênciasremotas, como reafirmadoras da identidade colectiva(...)"(em:Comunicação&política, n.s., v.VII, n.1p.121-127-Maria Nazareth Ferreira-"Os antigos rituais agrários itálicos e suas manifestações na actualidade"* Historiadora, Doutorada em Comunicação, Professora Titular da Escola de Comunicação e Artes daUniversidade de São Paulo; desenvolve pesquisas sobre Cultura e Comunicação há mais de 20 anos.Actualmente, coordena o Centro de Estudos Sobre Cultura e Comunicação - CELACC - ECA - USP)


Para além das tradições dos Romanos _ que, como pudemos verificar, persistem ainda nas actuais celebrações populares _, o momento do solstício é uma época de realce em qualquer calendário das culturas antigas, de qualquer mitologia, com ligação aos cultos da natureza, da magia ou do esotérico. Encontramos ainda hoje núcleos de adeptos de cultos que tiveram o seu início muitas eras atrás, desde os Egípcios, os Gregos, os Vikings, os Celtas _ para nomear apenas os mais conhecidos _ com seus derivados e ramificações ( os Wiccan, os Odinistas, entre muitos outros) mas em que os rituais próprios desta data se encontram recorrentemente ligados à benção/ fecundidade da terra e humanidade, no geral, com uma faceta de destaque quanto ao culto da Natureza, à magia, colheita e uso de ervas mágicas, aparecimento de seres etéricos, sendo a noite do solstício, ou melhor, a de S. João, para a qual o equivalente aos ritos ancestrais parece ter transitado, uma espécie de terra-de-ninguém em que se esbatem os limites entre a realidade...e o que não o é!
Enfim, uma profusão de encanto!







A não perder...e vir contar!




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